sexta-feira, 25 de novembro de 2011

UEPB 2012 - MARIAS


MARIAS
Janaína Azevedo

Gênero: Narrativo (CONTOS)
Estilo: Contemporâneo

AUTOR: Janaína de Castro Azevedo da Silva nasceu em Areia, estado da Paraíba, em 1973. Janaína é professora e contista e pertence à geração de jovens escritores que surgiu na década de 1990. A jovem estreou em livro com os contos de Marias com o qual venceu o concurso Novos Autores Paraibanos, da Universidade Federal da Paraíba. Sua obra é uma ficção que vai do sagrado ao profano, com situações do cotidiano, Janaína cria um clima de mistério em sua obra. O tema da autora está centrado na problemática da mulher onde busca respostas para as questões de sempre: quem sou eu? Onde estão os limites entre a carne e o espírito? E outras interrogações femininas sobre a vida.
 OBRA: Com Marias, Janaína Azevedo não somente se sagra vencedora, na categoria Contos, do concurso Novos Autores Paraibanos, versão 1999, mas, antes de qualquer imposição de ordem extraliterária, parece desnudar um pacto estético e existencial com a carne da palavra. Pacto que parece sinalizar para algo de urgente e de definitivo. A obra é composta por 13 contos e microcontos, todos precedidos de epígrafes diversas. Linguagem simples, construída a partir de vocábulos em que o erotismo e a liturgia se entrelaçam numa surpreendente dessacralização.  Sua prosa poética possui a inquietação dos paradoxos, das metáforas e ambigüidades, causando perplexidade e estranhamento pelo desbunde do efeito produzido por suas construções inusitadas “Aí, cheguei-me para Ele e o beijei: Sua divina boca então se pôs rubra do meu prostituto batom...”
A atmosfera psicológica e existencial em que mergulham os seus personagens, sempre vivendo situações limites, conflitos emocionais, perdas irreparáveis, revisão de valores humanos, perplexidades e espantos, releva-se, e releva-se, em realce, a fluidez da prosa característica de uma escrita, que classificaria, ao mesmo tempo, de orgástica e celebratória, dionisíaca e epifânica, sagrada e profana, divina e diabólica, enfim, feminil e poética.
Na intitulação do conto a escritora já demonstra a forte presença de uma de suas Marias ― Adélia Prado ―, a qual brinca com algumas certezas religiosas, antropomorfiza Deus, liberta a mulher de seus estereótipos e preconceitos, e climatiza a eroticidade feminina como resultado de conflitos e paradoxos.

CARACTERÍSTICAS:

  • Sagrado X Profano
  • Mulheres: sonhadoras, sonâmbulas, mal-amadas, loucas, avançadas, tristes raras e livres
  • Intertextualidade
  • Carnavalização
  • Amor
  • Solidão
  • Morte

CONTOS SELECIONADOS: COMENTÁRIOS

1 – DÁ-ME TUA MÃO, Ó VIRGEM: Narração feita em primeira pessoa por uma personagem adolescente em conflito com a igreja, consigo e com mundo. Vivendo sensações surreais e pensamentos libidinosos em relação à Virgem. considera-se doente de heresia, porém se delicia com o pecado.

2 – TIA DONA:  Narração em terceira pessoa, aborda a temática da submissão feminina, da resignação, da neurose e do misticismo.

3 – AS MULHERES DA QUADRILHA: Um diálogo explícito com o poema Quadrilha de CAD, narrando através das personagens femininas suas aflições e seus destinos com riqueza de detalhes e reflexões.

4 – CÁRIE NA FLOR: conta as inquietações do narrador personagem quando da observação de uma menina florista, asmática e pobre, que insistentemente aparecia para vender suas flores sempre na mesma esquina e no mesmo horário, surpreendentemente as flores nunca eram vendidas. Aqui cabe observar o eu agônico do personagem sempre revoltado com as questões sociais que permeiam o texto. Com final aberto, inconclusivo, instiga e decepciona a expectativa do leitor.

5 – O VINHO TINTO DA MEMÓRIA:  reflexões de uma personagem, lembranças do que não viveu e do que viveu. Lembranças regadas a vinho.

6 – A PUTA DE DEUS: O conto brinca com o trecho bíblico de Lucas já que não é a mulher adúltera que traz o vaso com perfume, é Deus que, diante dos ímpios, com voz de “filete d’água fria”, indaga:
― “Já recobri a minha cama com acolchoados, com lençóis de linho fino do Egito. Já perfumei o meu leito com mirra, aloés e canela. Vem, saciemo-nos de amores até a manhã, alegremo-nos com amores.”
A personagem se deleita de prazer com Deus, mas, mesmo assim, deseja homens, por acreditar, talvez, que nenhum ser humano vive só “em espírito”. Ainda, se Deus é o criador de todos os homens, e a eles concedeu-lhes Sua semelhança, o “estar com homens” é, também, “estar com Deus”.
“― Meu Senhor, Tua puta sente falta dos regozijos dos homens, das santas farras, deles, do profano vinho”Todavia, a voz antagônica, com ironia, humor ou apenas sapiência divina, responde: ― “És apenas mulher louca, a Alvoroçadora: de nada sabes”. Mulher que se mulheriza em vão.”

7 – MARIAS: poema em prosa onde a mulher, Maria é vista sobre a ótica de José, como um ser superior, poderoso, independente; numa dicotomia que remete ao pecado santo: “Ela vem com seu santuário pornográfico, com seu prostíbulo de orações. Ela é uma igreja de pecados. Ela vem e enfim, passa por mim. E eu, pobre José, aceito-a doce a trair-me. A querer descobrir-lhe assim, numa única vida, sua alma. Ela vai. Eu sempre fico.”

8 – COMUNGANDO BANQUETE: o ato cerimonial de adorar se converte em acesa chama erótica, ao mesmo tempo em que o eros que rege o corpo também contempla a alma, e se espiritualiza, e se sacraliza...A sexualidade latente na rotina da mulher em sua cozinha: “Há tanto que se fazer na minha cozinha: descaroçar as azeitonas (da memória), esquentar o forno, esfriar o ventre no mármore frio da pia, lavar a louça suja (do passado), tirar as escamas pra que meu amor saboreie os peixes do meu sexo.”

UFRN - 2012 A ROSA DO POVO


A ROSA DO POVO – Carlos Drummond de Andrade

“... obra que, de certa maneira, reflete um “tempo”, não só individual mas coletivo no país e no
mundo.”
Gênero: Lírico
Estilo: Poemas

AUTOR: nasce em Itabira (MG), em 31 de outubro de 1902. Começa seus estudos no Grupo Escolar Dr. Carvalho Brito; e, mais tarde, como interno no Colégio Arnaldo em Belo Horizonte. Problemas de saúde fazem-no regressar para Itabira. Em 1918, é matriculado no Colégio Anchieta da Companhia de Jesus, em Nova Friburgo (RJ), de onde é expulso por causa de um incidente com um professor de Português. Em 1923, matricula-se na Faculdade de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte. Inicia contatos literários com Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Corresponde-se com Mário de Andrade, envolve-se na ebulição modernista da década de 20. Funda, em 1925, A Revista junto com outros companheiros. Saem apenas três números da revista. No mesmo ano, casa-se com Dolores Dutra de Morais e conclui o curso de Farmácia. Desinteressado pela profissão, torna-se professor de Português e Geografia no Ginásio Sul-Americano de Itabira. Volta a Belo Horizonte e torna-se redator-chefe do Diário de Minas. Perde o primeiro filho: Carlos Flávio. Em 1928, nasce Maria Julieta. No mesmo ano, a publicação de No meio do caminho na Revista de Antropofagia causa enorme polêmica e um verdadeiro escândalo. Inicia carreira de funcionário público em Minas Gerais. Transfere-se como jornalista para o Minas Gerais, e torna-se auxiliar de redator; logo depois, redator e cronista. Assina as crônicas sob o pseudônimo de Antônio Crispim. Em 1930, publica Alguma Poesia. Torna-se chefe de gabinete do amigo Gustavo Capanema, que, ao se tornar Ministro da Educação e Saúde Pública, leva o poeta para o Rio de Janeiro. No Rio, colabora com a Revista Acadêmica, Correio da Manhã, Folha Carioca, Revista Euclides, A Manhã, Leitura, Tribuna Popular, Políticas e Letras. Em 1940, volta às páginas do Minas Gerais. Deixa a chefia do gabinete de Capanema e passa a trabalhar na chefia da Seção de História da Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Em 1945, empenha-se na campanha pela anistia.
Aposentado desde 1962, dedica-se integralmente ao trabalho literário. Carlos Drummond de Andrade falece no dia 17 de agosto de 1987, no Rio de Janeiro, dias após o falecimento de sua única filha, Maria Julieta.

CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL

Os poemas de A rosa do povo foram escritos entre 1943 e 1945, quando os horrores da II Guerra Mundial angustiavam a humanidade e o exército nazista recuava, especialmente na extinta União Soviética. Simultaneamente, no Brasil, o Estado Novo – autoritário, policialesco, ainda que economicamente
modernizador e socialmente avançado (sob o comando de Getúlio Vargas) – perdia o apoio entre as classes médias e as elites intelectuais(1) que aspiravam a um regime democrático. Neste caldeirão de conflitos e circunstâncias dramáticas, o foco poético de CDA – até então centrado mais na subjetividade e no individualismo do eu lírico deslocou-se para uma ênfase no histórico-social .

OBRA:

* É a mais extensa de todas as obras de CDA, composta por 55 poemas.
* As atitudes mais constantes do livro são a revolta, a angústia, o medo, a solidariedade, o sofrimento, a esperança e a desesperança
* A rosa é o principal símbolo polarizador, que representa, inicialmente, a flor do socialismo. Ela simboliza a participação social e política do poeta, a revolução com esperança de vitória. Mas também, num sentido mais amplo, a própria poesia (a metalinguagem).

Os principais temas: Os poemas de A rosa do povo podem ser agrupados de acordo com os temas centrais que se apresentam em toda a obra de Drummond. Este agrupamento, entretanto, não exclui a possibilidade de um poema apresentar vários desses temas centrais ao mesmo tempo. De modo geral, poderíamos pensar nas seguintes divisões:
• A própria poesia (“poesia contemplada”): são poemas metalingüísticos, ou seja, que falam da própria poesia, tais como “Consideração do poema”; “Procura da poesia” e “Carrego comigo”.
• O choque social (“a praça de convites”): poemas participantes ou engajados, como “Morte do leiteiro”; “Carta a Stalingrado”; “Com o russo em Berlim”; “O medo”.
• A família: poemas de recordação de parentes, como “Nos áureos tempos”; “Desfile”; “Retrato de família”, “Como um presente”, e “No país dos Andrades”.
• O indivíduo (“um eu todo retorcido”): poemas centralizados no questionamento do próprio ser, como “A flor e a náusea”; “Rola mundo”; “Anoitecer” e “Os últimos dias”.
• O conhecimento amoroso: poemas voltados ao lirismo amoroso, como “Caso do vestido” e “O mito”.
• Cantar de amigos: poemas que homenageiam amigos ou ídolos, como “Mário de Andrade desce aos infernos” e “Canto ao homem do povo Charlie Chaplin”.
• Tentativa de exploração e de interpretação do estar-no-mundo: fechamento do círculo da poesia drummondiana, esse tema retoma o primeiro, estabelecendo a presença do existencial e do metafísico: “Versos à boca da noite”, “Morte no avião” e “Os últimos dias”.

Estilo de época: A rosa do povo está inserida na segunda fase do Modernismo, ou seja, enquadra-se nas perspectivas da geração de 30. A obra, publicada em 1945, representa um marco divisório entre a segunda e a terceira fase moderna. Drummond demonstra nessa obra sua aversão e perplexidade diante da violência das guerras, do desamor entre os homens, de um mundo marcado pela destruição e fragmentação. Assim, Carlos
Drummond une sua inventividade agressiva de modernista ao tom de denúncia social para compor um belo e comovente livro.
São traços de modernidade em A rosa do povo:
1. O emprego de uma linguagem coloquial marcada pela simplicidade vocabular: “quede” ou “evém”.
2. O emprego de versos livres brancos.
3. A presença da temática social e da poesia engajada.
4. O uso de versos nominais (sem verbos).
5. O emprego de substantivos isentos de qualificativos.
6. O lirismo sem confidência personalíssima: Drummond emprega um processo de transferência do tom confessional para o leitor. Assim, ele sugere ao leitor que este pode se ver como um ser múltiplo e dividido.
7. O questionamento existencial: questionamento de si mesmo e do mundo diante da miséria coletiva e do absurdo das guerras e ditaduras que dividem homens e nações.
8. O questionamento metafísico: tomada de consciência e descoberta da morte e da velhice.
9. O psicologismo: associação simbólica com imagens vertidas do subconsciente, tal como a água (vida ou morte).
10. O emprego da metalinguagem: discurso poético voltado ao seu próprio fazer.
11. A ruptura com as formas tradicionais da poesia do passado, quebrando normas rítmicas, melódicas, sintáticas e rímicas.


UFRN - 2012 O SANTO E A PORCA


O Santo e a Porca - Ariano Suassuna

Gênero: Dramático (Comédia)
Estilo: Pós-Modernismo

AUTOR: Ariano Vilar Suassuna, advogado, professor, teatrólogo e romancista.  Nasceu na Paraíba em 16/06/1927. A infância passada no sertão familiarizou o futuro escritor e dramaturgo com os temas e as formas de expressão artística que viriam mais tarde constituir seu universo ficcional. Em 1590, fundou o Teatro Popular do Nordeste e, em 1970, lançou o Movimento Armorial, voltado para o descobrimento e interpretação das raízes históricas do Nordeste brasileiro, pregava o resgate das formas de expressão populares tradicionais: poesia, teatro, romance, pintura, gravura, escultura, cerâmica, música, tapeçaria e cinema.

OBRA: O Santo e a Porca que aborda o tema da avareza. É uma comédia em três atos. Aproxima-se da literatura de cordel e dos folguedos populares do Nordeste. Na trama, Suassuna narra a história de um velho avarento conhecido por Euricão Árabe, ele é devoto de Santo Antônio e esconde em sua casa uma porca cheia de dinheiro. Muito divertida, a história mistura o religioso e o profano e de Caroba, a empregada da casa, que através de sua esperteza, consegue articular uma grande confusão para que todos os enamorados se casem. Margarida, a filha de Euricão, quer se casar com Dodó, mas o pai dele, Eudoro Vicente, quer que ele termine seus estudos. Benona, tia de Margarida e irmã de Euricão, é apaixonada por Eudoro, já foi noiva dele, mas subitamente resolveu romper o noivado e ele se casou com outra. Pinhão, empregado de confiança de Eudoro Vicente, quer se casar com Caroba, mas não têm casa nem dinheiro para tanto; Euricão é viúvo e desde que a mulher morreu, após tê-lo abandonado, ficou amargurado e tornou-se um grande avarento, guardando todo seu dinheiro numa porquinha velha. O texto, que originalmente foi encomendado a Ariano Suassuna pela atriz Cacilda Becker, é uma comédia farsesca de 90 minutos.  Apesar de engraçado, o texto tem um fundo filosófico, o que não pode passar despercebido. O texto não se sustenta só com o riso, mas sobretudo pela visão crítica. Suassuna utiliza uma trama muito simples para tratar de algo mais complexo, como a relação do mundo material com o espiritual. O leitor deve perceber que o comportamento de Euricão lembra muito os conflitos barrocos de ordem religiosa. No entanto, esse conflito, inerente ao ser humano, chama atenção pelo fato de o personagem não desfrutar de sua riqueza.

ENREDO:

Numa linguagem alegre, bem humorada, Suassuna escreve a comédia sobre uma porca que esconde um tesouro, sob a guarda de Santo Antônio. Euricão, avarento, vive agarrado a sua porca de madeira que herdou de seu bisavô e onde guarda seu tesouro, cada centavo que ganhou durante toda sua vida foi para o "bucho" da porca. Margarida, filha de Euricão é apaixonada por Dodó, filho do ricaço Eudoro. Dodó deveria estar na cidade grande estudando a mando de seu pai, mas sua grande paixão o fez se disfarçar de corcunda, barbudo e boca torta para arranjar o emprego de guarda-costas de Margarida e poder namorá-la escondido. Pinão, empregado de Eudoro é noivo de Caroba, ama de Margarida, eles não conseguem casar porque Pinhão não tem dinheiro nem onde morar, por isso, faz um acordo com Dodó, vai ajudá-lo a ficar com Margarida em troca de uma pequena terrinha que Dodó ganhara de sua madrinha, e para garantir o negócio exige a assinatura de uma promissória. Margarida ficou hospedada na casa de Eudoro durante alguns dias, ele viúvo, se apaixonou por ela. Mandou Pinhão levar uma carta a Euricão avisando de sua chegada com a intenção de roubar-lhe seu maior tesouro. Euricão pensa que se trata da porca e esconde-a no cemitério de onde foi roubada por Pinhão. Benona, irmã de Euricão tinha sido noiva de Eudoro na juventude, depois de uma briga ele casou-se com outra, as não se esqueceram um do outro. Caroba quer proteger o amor de Margarida e Dodó, e também aproximar Eudoro de Benona, por isso inventa uma porção de mentiras que confundem os personagens. Eudoro pede a mão da moça (Margarida) e Euricão aceita pensando que é de Benona, Caroba diz a Benona que Eudoro quer noivar com ela, e arranja uma entrevista com Eudoro e sua noiva.  Essa trama acaba comprometendo Eudoro e Benona, e Dodó e Margarida. Pinhão devolve a porca porque descobre que não há tesouro. No final somente Euricão fica sem noiva, agarra-se à porca e descobre que aquele dinheiro já perdeu o valor, culpa Santo Antônio por não ter cuidado bem de seu tesouro, e continua sua ladainha:
_ Santo Antônio, Santo Antônio. Ai, meu Deus. Ai a crise, ai a carestia, tudo que se compra é pela hora da morte. Santo Antonio me protege, cuide da minha porquinha.


CARACTERÍSTICAS DA PEÇA:

Segundo o autor, O Santo e a Porca não é uma obra original sua, mas sim uma adaptação de Plauto, escritor latino do período antes de Cristo. Na peça Aululária, o protagonista é "Euclião", que encontra uma panela de ouro deixada por seu avô. Esse 'achado' aliado ao casamento de sua filha com um velho rico origina o mote central de um texto ágil cheio de encontros, desencontros e ambiguidades'. Suassuna adaptou o texto de Plauto, mas desenvolveu uma releitura dentro do contexto nordestino da literatura de cordel e criou uma trama mais complicada". O Santo e a Porca é um texto escrito para teatro bastante fácil, mas é preciso prestar atenção nas rubricas (indicações entre parênteses). Elas acabam fazendo o papel do narrador e dão o 'tom' da cena.
Os três atos da peça poderiam ser estruturados da seguinte maneira:

- primeiro ato: apresentação do problema e das personagens;
- segundo ato: complicação da situação, ponto de tensão;
- terceiro ato: desenlace.

TEMPO:

O tempo da ação é cronológico de aproximadamente 24 horas e está dividido em consonância com os atos da peça:

- Período da manhã: recebimento da carta espera por Eudoro, início da complicação (primeiro ato)
- Período da tarde: chegada de Eudoro, pedido de casamento, pedido de entrevista. (segundo ato)
- Período da noite: entrevistas, revelações, desfecho. (terceiro ato)

Estas marcações ficam muito claras nas falas das personagens. Concluí-se então que, na representação da peça, o fato da "entrevista" é o marcador temporal que a divide em dois grandes momentos:

Antes da entrevista: clima de tensão, espera, expectativa que culminará na reconciliação dos casais Caroba e Pinhão, Margarida e Dodó e Eudoro e Benona.
Depois da entrevista: reencontro de Dodó com seu pai Eudoro, os pedidos de casamento, a descoberta do segredo de Euricão (a porca) e a sua decepção.

Pode-se ver nessa peça um claro caráter moralizante, típico dos textos católicos. O maniqueísmo é marcado pela criação de extremos e representado quando Euricão sente-se obrigado a escolher entre o material (dinheiro) e o espiritual (Santo Antônio).

ESPAÇO:


O espaço é limitado e está restrito a casa d Euricão, sendo a sala destinada à representação da peça

A SIMBOLOGIA:

Na apresentação de sua peça O Santo e a Porca (1957), Ariano Suassuna a subintitula de uma "Imitação Nordestina de Plauto", referindo-se à Aululária, do autor latino. A palavra imitação, usada por Suassuna, nos remete ao conceito aristotélico de mímesis, cujo significado não representa apenas uma repetição à semelhança de algo, uma cópia, mas a representação de uma realidade, mais precisamente de uma revelação da essência dessa realidade. Essa essência está representada, nessas duas obras, pela avareza humana.
Veremos os símbolos pertinentes as duas obras:
* A panela, em Aululária
* A porca, na comédia de Suassuna.
Tomamos como símbolos, na Aululária O Vaso de Ouro, o Deus Lar, a lareira, o templo da Fidelidade, o bosque de Silvano e o objeto representativo da avareza, a panela (vaso). Em O Santo e a Porca, temos como correspondentes o Santo Antônio, a sala, o porão, o cemitério e o objeto da avareza, a porca de madeira. Nesse contexto de crenças e costumes, a avareza das duas personagens está representada em dois objetos: a panela (vaso) com o ouro de Euclião, escondida na lareira, e a "porca de madeira, velha e feia (...) com pacotes de dinheiro" (SUASSUNA, 1984, p.13), depositada na sala de Euricão sob a imagem de Santo Antônio. A lareira expressa o simbolismo da vida em comum, do centro da casa. Seu calor e sua luz aproximam as pessoas, é o centro da vida. Assim como a sala, tem o significado de "um santuário, no qual se pede a proteção de Deus, celebra-se o seu culto e guardam-se as imagens sagradas" (CHEVALIER, GHEERBRANT, 1994, p.536). A panela e a porca de madeira eram guardadas, respectivamente, nesses dois ambientes domésticos - lareira e sala -; portanto, equivalentes.

O santo e a porca é um texto leve, alegre, risível, cheio de cenas do mais puro pastelão, porém, essa graça não chega a ser besteirol, mesmo porque não é só o riso e o ridículo que é explorado por Ariano Suassuna, mas também a crítica aos costumes, contribuindo para o aguçamento do senso crítico. Sem pretensões reformistas radicais, até porque o texto é inspirado nos modelos medievais, O santo e a Porca critica o mundanismo, o apego às coisas materiais e a suplantação da fé pelo materialismo.

UFRN - 2012 NEGRINHA



NEGRINHA – Monteiro Lobato

Gênero: Contos
Estilo: Pré-Modernismo

AUTOR: Natural de Taubaté (SP), nasceu em 18/04/1882. É uma das figuras excepcionais das letras brasileiras. Jornalista, contista, criador de deliciosas histórias para crianças, suscitador de problemas, ensaísta e homem de ação, encheu com seu nome um largo período da vida nacional. Com a publicação do livro de contos "Urupês", em julho de 1918, quando já contava com 36 anos de idade, chama para o seu talento de escritor a atenção de todo o país. Cita-o Ruy Barbosa, em discurso, encontrando no seu Jeca Tatu um símbolo da realidade rural brasileira. Lança-se à indústria editorial, publica livros e mais livros — "Onda Verde", "Idéias de Jeca Tatu", "Cidades Mortas", "Negrinha", "Fábulas", "O Choque", etc. Fracassa como editor, ao lançar a firma Monteiro Lobato & Cia., mas volta com a Companhia Editora Nacional, ao lado de Octales Marcondes, e triunfa. Tenta a exploração de petróleo, e acaba na cadeia, perseguido pela ditadura de Getúlio Vargas. Não só escreve, como traduz sem pausa, dezenas e dezenas de livros. Foi um grande homem, um grande brasileiro e um dos maiores escritores — em todo o mundo — de histórias para crianças. Basta dizer que, no período de 1925 a 1950 foram vendidos aproximadamente um milhão e quinhentos mil exemplares de seus livros. Era, de fato, um ser plural: escritor precursor do realismo fantástico, escritor de cartas, escritor de obras infantis, ensaísta, crítico de arte e literatura, pintor, jornalista, empresário, fazendeiro, advogado, sociólogo, tradutor, diplomata, etc. Faleceu na cidade de São Paulo (SP), no dia 04 de julho de 1948. Monteiro Lobato foi tão importante pelo que foi e o que fez quanto pelo que escreveu. O que foi e fez: Foi empresário, editor e estimulou definitivamente a leitura no Brasil; foi uma das mais importantes e críticas mentes do início do século XX; defendeu bravamente as pesquisas em busca de poços de petróleo no Brasil, sendo ele próprio responsável pela perfuração de um; atacou duramente a condição de atraso em que se encontrava o interior do estado de São Paulo, especialmente o Vale do Paraíba; foi iconoclasta e envolveu-se na célebre polêmica com a pintora Anita Malfatti, fato que desencadeou as ações dos modernistas para a realização da Semana de Arte Moderna; o que escreveu. Criou a figura imortal do Jeca Tatu, o caipira preguiçoso, que colhe todos os frutos da lei do menor esforço, que sintetiza o modo de ser do brasileiro rural. No universo infantil, Lobato criou o mágico mundo do Sítio do Pica-pau Amarelo, revitalizando e revolucionando a literatura infanto-juvenil no Brasil.

OBRA: publicado em 1920, segundo os especialistas em Monteiro Lobato, reúne o melhor em sua obra de literatura não-infantil. São dezessete contos, alguns são de sua fase atormentada, antes de viajar aos Estados Unidos. "Negrinha", "O Jardineiro Timóteo", "O colocador de pronomes" e a obra-prima, "A facada imortal", que foi escrita em seu regresso, são alguns deles. Muitos contos de Negrinha são experimentos com as linguagens dramática ou cinematográfica, que conferem a seu texto maior velocidade e promovem deslocamentos temporais e narrativos curiosos. Os personagens destes 17 contos são um retrato da população brasileira das décadas iniciais do século XX. Através deles, Lobato denuncia e desnuda os bastidores de uma sociedade patriarcal que deixa entrever os vestígios de uma persistente mentalidade escravocrata, mesmo décadas após a abolição.
CARACTERÍSTICAS: Em Negrinha, Lobato nos apresenta seu talento como contador de causos, histórias da gente da roça, dos mais poderosos e dos mais simples, criando obras-primas do conto brasileiro, em especial O Colocador de Pronomes, grandiosa crítica à retrógrada gramática do português. Ironia e linguagem bem elaborada.

RESUMO

1 – Negrinha - é narrado em terceira pessoa, e impregnado de uma carga emocional muito forte. O conto se mostra atual ao denunciar a violência contra a criança, notadamente a negra. Com ironia, lobato elabora o retrato negativo "da excelente senhora", a "ótima dona Inácia", apontando, através de chavões, a hipocrisia da sociedade: "a caridade é a mais belas das virtudes cristãs..."; "quem dá aos pobres empresta a Deus".
- O tema da caridade azeda e má, que cria infortúnio para os dela protegidos, é um dos temas recorrentes de Monteiro Lobato.
- O segundo aspecto que poderia ser observado é o fenômeno da epifania, a revelação que, inesperadamente, atinge os seres, mostrando-lhes o mundo e seu esplendor. A partir daí, tais criaturas sucumbem, tal qual Negrinha o fez. Ter estado anos a fio a desconhecer o riso e a graça da existência, sentada ao pé da patroa má, das criaturas perversas, nos cantos da cozinha ou da sala, deram à Negrinha a condição de bicho-gente que suportava beliscões e palavrórios, mas a partir do instante em que a boneca aparece, sua vida muda. É a epifania que se realiza, mostrando-lhe o mundo do riso e das brincadeiras infantis das quais Negrinha poderia fazer parte, se não houvesse a perversidade das criaturas. É aí que adoece e morre, preferindo ausentar-se do mundo a continuar seus dias sem esperança.
2 - As fitas da vida - Um velho, ex-soldado da Guerra do Paraguai, sozinho e cego, acaba por engano sendo levado ao prédio da imigração em São Paulo. Velho e cego, ele declara que gostaria de reencontrar seu antigo capitão, ao qual serviu durante a guerra. Ele acredita que o bom homem seria capaz de cura-lo até mesmo da cegueira. Coincidentemente, o seu antigo capitão, objeto de sua grande estima, fora promovido a chefe do departamento de imigração, pois era médico. Ao encontrar o antigo soldado, o médico-capitão o encaminhou para uma cirurgia de catarata, devolvendo-lhe de fato a visão.
3 – O drama da geada - Um rico fazendeiro do café enlouquece, depois de ver todo seu cafezal queimado pela geada. Durante a noite ele desaparece e, depois de muito procura-lo, seus parentes o encontram pintando de verde as folhas amareladas pela geada.
4 - O bugio moqueado - O narrador nos fala de sua experiência assustadora depois de ter visitado um bruto fazendeiro no Mato Grosso. Ele jantou com o homem e viu que uma estranha carne fora servida à esposa do fazendeiro. Ela comeu a contra-gosto o esquisito prato. Mais tarde, conversando com um amigo negro, descobrira que esse tal fazendeiro teria assassinado e moqueado (preparado a carne) um negro de sua fazenda por suspeitar que ele tivesse tido um caso com a sua esposa, o que se supunha pura maledicência.
5 – O jardineiro Timóteo - apesar de "escorregões" em estereótipos racistas, é um relato sensível e triste sobre a violência contra os negros no Brasil, podendo ser lido ainda como um lamento sobre certo lado destruidor da humanidade. Lobato parece questionar a modernização a qualquer preço, aquela que destrói sem critérios, sem pesar os sentimentos de quem participou da construção no momento anterior
6 - O fisco - Um menino, filho de imigrantes italianos, tenta ajudar a família se tornando engraxate. Mas assim que se dirige
à praça, é abordado por um fiscal da prefeitura que exige dele a licença municipal. Sem o dinheiro para a licença, o menino é levado até sua casa, sua mãe tem de gastar as últimas economias do mês e o menino bem-intencionado acaba por levar uma surra do pai, enquanto o fiscal se dirige ao bar da esquina para tomar uma cerveja com o dinheiro que “arrecadara”.
7 - Os negros - O narrador e seu amigo Jonas param no meio de uma viagem a cavalo pelo interior, na casa de Adão, um negro ex-escravo, que lhes oferece pouso. Sem espaço em seu barraco, todos vão dormir na casa grande da fazenda, abandonada e amaldiçoada. Durante a noite, Jonas é possuído pelo espírito do jovem Fernão, um português pobre, funcionário da fazenda no tempo da escravidão, e que teve um namoro escondido com a filha do patrão, o temível Capitão Aleixo. Isabel, a filha do capitão, acabou mandada para a corte e enlouqueceu, longe de seu amado. A escrava Liduína, que ajudou o casal, foi morta a relho. O jovem Fernão foi emparedado vivo. Depois do transe, Jonas de nada se lembrava, de modo que ficou só na memória do narrador a história da tragédia dos jovens amantes.

8 – Barba azul - Um amigo do narrador conta-lhe a história de um tal Pânfilo Novais, um facínora que descobriu um terrível meio de enriquecer: casava-se com mulheres feias, magras e pequenas, inaptas para o parto;fazia-lhes seguro de vida e , assim que engravidavam, morriam no parto, deixando-o com o dinheiro do seguro.
9 – O colocador de pronomes - Monteiro Lobato ridiculariza a personagem central, Aldrovando, exatamente pelo uso de uma linguagem empolada e descabida, cheia de preciosismos e de palavras incompreensíveis para a maioria das pessoas.
10 – Uma história de mil anos - Vidinha é uma bela jovem, - um anjo de candura, vive com a família nos confins do interior, sem sonhos, ilusões ou paixões. Um dia, um forasteiro desperta em seu coração o amor, beija-lhe e desaparece. Na solidão, agora
percebida depois de conhecer o amor, Vidinha definha, entristece e acaba morrendo.”Não vive na terra o que não é da terra”.
11 – Os pequeninos -  Enquanto espera o navio que trará um amigo de Londres, o narrador ouve histórias dos marinheiros. Uma delas narra um episódio em que um gaviãozinho ataca uma ema, cravando-lhe sob as asas as suas garrinhas e bicando-lhe sem piedade a carne viva e macia. Sem defesa, a grande ema é vítima do gaviãozinho. A outra história é de um português, Manuel, que é acusado de roubar um saco de arroz e depois descobre que quem o roubou foram as formigas, tão pequeninas. Enfim o narrador recebe o amigo, tuberculoso, vítima do pequenino bacilo de Koch.
12 - A facada imortal - Trata-se de um célebre golpe que Indalício Ararigbóia deu em seu amigo Raul. Chamava-se na época FACADA o empréstimo que se fazia sem a intenção de pagar. O golpista era conhecido por faquista. Indalício consegue arrancar um empréstimo do pão-duro amigo Raul ao mexer com a vaidade do amigo. Após o golpe, Indalício sente-se vitorioso e Raul sente-se derrotado.
13 - A Policitemia de dona Lindoca - Desgostosa do descaso e das traições do marido, dona Lindoca queixa-se de um mal-estar, procura o doutor Lorena,um médico charlatão, e descobre-se vítima de uma policitemia. O médico recomenda-lhe descanso e carinho da parte do marido. A vida está uma maravilha, até que o médico é descoberto e foge da cidade. O marido volta ao descaso e dona Lindoca sente saudades da policitemia.
14 – Quero ajudar o Brasil - Um negro, funcionário da Sorocabana, procura pelos incorporadores da empresa que luta pela exploração do petróleo (seria de Lobato?) e deseja comprar 30 ações da empresa no total de 3 contos, toda a economia de uma vida inteira de trabalho duro. Ele declara que não se importa com os riscos que corre, pois tudo o que quer é ajudar o Brasil.”Abençoado negro!... Os teus três contos foram mágicos.... Trancaram com pregos a porta da deserção.”
15 – Sorte Grande - Maricota é filha de dona Teodora. Moram numa pequena cidade, Santa Rita, com mais seis irmãos. Vivem na pobreza e, para piorar, Maricota desenvolve uma doença rara que lhe faz crescer o nariz. Do tamanho de uma beterraba, o nariz agora é notório e vexatório. A família junta um dinheiro para uma consulta com um especialista de uma cidade grande, mas no caminho, num barco, Maricota conhece um jovem médico, Dr. Cadaval, que se interessa pelo seu caso e a convida para uma tratamento no Rio de Janeiro. Maricota aceita se mudar para o Rio desde que o dr. lhe consiga alguns favores, emprego para os irmãos e até casamento para as irmãs. Afinal ele, como pesquisador irá colher os louros da vitória pela descoberta do Rinofima, nome do tumor de Maricota. Ela acaba operada e seu nariz volta ao normal, a família se ajeita e o médico ganha fama. O que fora considerado uma vergonha, agora passou a ser chamado de sorte grande pelo povo de Santa Rita.
16  – Dona Expedita - Dona Expedita é uma senhora de 60 anos que ainda diz a todos que tem 36. Ela procura um emprego de criada para serviços leves, mas a situação está difícil. O narrador então nos conta dois episódios engraçados vividos por ela na sua busca por um emprego ideal. Um dia ela viu no jornal uma oferta de emprego leve de acompanhante para o qual se pagaria 400 mil réis por mês, mas ao chegar ao local descobriu que se tratava de um erro no anúncio, o salário seria de 40 mil réis. O segundo episódio foi quando uma imigrante alemã a procurou falando de um serviço excelente, de uma boa patroa e um bom salário. Dona Expedita achou que ela era a patroa interessada em contratá-la, mas descobriu desconsolada que a alemã também procurava por um emprego assim.

17 – Herdeiro de si mesmo - Lupércio Moura, aos 36 anos, começa a ser acompanhado por uma maré de boa sorte. Tudo conspira para seu enriquecimento. Por acaso, embriagado, acaba comprando o casco de um velho navio, uma sucata, por 45 contos de réis, tudo o que possuía. Um ano depois, o preço do ferro sobe em função da guerra e ele vende a sucata por mais de 400 contos. No fim da vida está rico, uma fortuna de 60 mil contos, sem ter um herdeiro. Então, procura o médium, dr. Dunga e pede-lhe que se informe com os espíritos sobre quem será sua mãe na sua próxima encarnação, para fazê-la depositária da fortuna dele no seu testamento, queria ser herdeiro de si mesmo.

TEMÁTICA:
·         Tragédia
·         Ódio
·         Sadismo
·         Sociedade escravocrata
·         Violência
·         Loucura
·         Metalinguagem
·         Folclore

UFRN - 2012 CRÔNICAS DE ORIGEM



CRÔNICAS DE ORIGEM – Luís da Câmara Cascudo

Gênero: Crônicas
Estilo: Modernismo

AUTOR: Luis da Câmara Cascudo nasceu em Natal em 1898 e faleceu na mesma cidade em 1986. Filho único de uma família abastada, para os padrões locais no inicio do século XX, e próxima ao círculo de poder em Natal, Cascudo teve urna educação privilegiada desde cedo; começou a escrever em A Imprensa, periódico diário de propriedade do seu pai, o Coronel Francisco Cascudo; estudou Medicina no Rio de Janeiro até o quarto ano mas acabou se formando bacharel em Direito, pela Faculdade do Recife, em 1927; atuou como professor, jornalista, advogado e escritor. A obra de Cascudo é imensa - com mais de 150 publicações, entre livros e uma prolífica correspondência - e teve Natal e o Rio Grande do Norte como um dos seus objetos e locais privilegiados de Investigação sobre cultura, em seu sentido lato, identificando permanências, circulações e transformações de idéias, modelos e objetos culturais no tempo e no espaço. Câmara Cascudo foi um expoente do modernismo no RN, não figurando nos livros didáticos futuros, por se recusar a sair de Natal e ir para São Paulo centro das manifestações modernistas no Brasil.

OBRA: As Crônicas de Origem retratam o surgimento de uma nova cidade dentro de uma perspectiva Modernista e apresenta o intelectual que puxou para si a responsabilidade de escrever sobre o passado que inexoravelmente ia se distanciando. A coletânea é dividida em duas partes. A primeira é composta de um estudo introdutório, que estabelece conexões entre as crônicas e as transformações vividas pela cidade de Natal que nas duas primeiras décadas do século XX foram sacudidas pelas influencias modernistas, A segunda parte é composta por 16 crônicas.

CARACTERÍSTICAS:

• Dono de uma linguagem ao mesmo tempo coloquial e elegante, seu estilo caracteriza-se também pela linguagem original e espontânea.
• As crônicas não falam apenas da Cidade de Natal. Falam também de seu autor, das cores, das manias da época e de algumas personalidades.
• Valorização de elementos do passado associado a necessidade do progresso.
• Questionamento sobre a participação dos escritores diante das questões que agitavam a cidade.
• Lirismo relacionado aos hábitos dos moradores da antiga Natal.
• Reconstituição histórica da cidade antiga
.
RESUMO:
1 – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte: Cascudo sugere que o dever dos historiadores da cidade era o de recuperar do esquecimento, encontrando, estudando e comentando os documentos que falavam do passado.
2 – A noite em Natal: O narrador relembra uma cidade em que ao cair da noite obrigava os moradores se refugiarem em casa para evitar a escuridão ou a semiescuridão dos lampiões da rua.
3 – A casa do operário: Uma apologia ao Centro Operário Natalense, enfatizando sua preocupação em relação ao operário e numa linguagem lírica sugere que também o operário se valorize. Cascudo era sócio honorário do C.O.N.
4 – Homo Brasiliensis: A crônica saúda a emergência, entre nós, de um novo tipo de homem, o qual, adotando um novo estilo de governo, teria afastado a influência daquela política corroída pelos vícios do personalismo e dos interesses pessoais que emperravam o progresso e a autonomia do Estado.
5 – Lei n. 145: Cascudo relembra a lei de apoio a publicação de livros, aprovada em agosto de 1900.
6 – O livro das velhas figuras (LARICO PELLADO): Uma história hilária do governante Alarico José Furtado, vaidoso e esnobe, foi aclamado em cerimônia popular, mas de tanto abanar a cabeça agradecendo as salvas sua peruca caiu deixando a mostra um crânio nu, pontiagudo brilhante.
7 – A nossa D. G. de E.: Aqui o narrador discorre sobre o ensino agrícola incentivado pelo governo Lamartine que estava adotando métodos modernos de organização da produção e dos dados da economia estadual, essa última mediante a uma organização da Diretoria Geral de Estatística. A idéia seria aplicar conhecimentos técnicos como parte de uma política de melhoramentos da lavoura de algodão.
8 – O doutor Antunes: O cronista aqui, observa a pacata domesticidade de Natal, aludindo às formas de sociabilidade da cidade, médico conhecido por fazer parte dessa domesticidade das velhas ruas de Natal.
9 – E a nossa universidade popular?: Dentro das atividades educativas desencadeadas pelo governador José Augusto, ele sugere assuntos que pudessem concorrer com a instrução do operariado, indicando os nomes dos palestrantes para desenvolver cada um deles. Assim, depois de aludir ao plano de estudos que traçara para a Universidade Popular, Cascudo, conclama dois intelectuais que haviam realizado viagem de estudos ao Egito para falar ao público naquele grêmio.
10 – A taça florida: Nessa crônica Câmara Cascudo se reporta a uma Natal pródiga em jardins cuidados por mãos recatadas de donas de casa, uma cidade cujos moradores encontravam tempo para cuidar das flores, que eles conheciam pelo nome.
11 – Carnaval! Carnaval!: Aqui o cronista faz uma retrospectiva histórica do que seria o carnaval no decorrer da história e o carnaval do entrudo em Natal.
12 – Proteção da alegria popular: Aqui o cronista condena a posição de indiferença e esnobismo das elites locais através do sarcasmo ele critica o registro da evolução social e econômica da região.
13 – Angelo Roselli: Nessa crônica dedicada ao comerciante Ângelo, Cascudo invocava a cidade do passado como uma Natal Velha e deliciosa, dorminhenta à beira-rio, tão recatada e doce como a água móbil e verde.
14 – O novo plano da cidade I - A cidade: Trata-se de um plano de urbanização da Natal antiga.
15 – O novo plano da cidade II - A Ribeira do “Master Plan”: O plano que segundo o cronista seria mais eficaz que o anterior, pois deveria interligar o espaço urbano sem destruir as linhas básicas do ordenamento da cidade, o que, de acordo com Cascudo, efetivamente estava sucedendo.
16 – Junqueira Ayres: Homenagens e lembranças a grandes personalidades, A Junqueira Ayres, por exemplo, que virou nome de rua, faz referencias elogiosas a sua intelectualidade e sensibilidade.


TEMÁTICA:

• O poder destrutivo do tempo
• Saudosismo
• Metalinguagem
• Urbanização
• Passado X Presente
• Humor
• Personagens históricos.

Não é que o amor seja cego......


É que qualquer maneira de amor vale a pena.....