sábado, 3 de dezembro de 2011

PSS 3 - OS MELHORES POEMAS DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO

MELHORES POEMAS DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO
“O nordestino é marcado pela paisagem.”

AUTOR: Nasceu em Recife (PE) em 1920. Ingressou na carreira diplomática aos 25 anos, exercendo sua profissão em diversos países, por mais de quarenta anos. A cultura espanhola, que o poeta conheceu a fundo quando viveu em Barcelona e Sevilha, deixou muitas marcas na poesia de João Cabral, A Espanha foi a terra estrangeira com que o poeta estabeleceu vínculos mais fecundos. Três de seus livros foram impressos nesse país. Seu texto de maior êxito popular é Morte e Vida Severina (1955), já traduzido para o espanhol, o francês e o alemão. É membro da Academia Brasileira de Letras, eleito por unanimidade em 1968, ano em que publicou a primeira edição de suas Poesias completas.  João Cabral inaugurou um novo modo de fazer poesia em nossa literatura. A essência de sua atividade poética mostra a tentativa de desvendar os elementos concretos da realidade. Sempre guiado pela lógica, pelo raciocínio, seus poemas evitam análise e exposição do eu e voltam-se para o universo dos objetos, das paisagens, dos fatos sociais, jamais apelando para o sentimentalismo. Por isso, o prazer estético que sua poesia pode provocar deriva sobretudo de uma leitura racional, analítica, não do envolvimento emocional com o texto. Essas características levaram a crítica a ver na obra de João Cabral uma "ruptura com o lirismo" ou a considerar sua expressão poética como "antilírica". Não devemos, entretanto, supor que essa relação do poeta com o mundo concreto, objetivo, produza apenas textos descritivos. Na verdade, suas descrições ora acabam adquirindo valor simbólico, ora acabam denunciando a crítica social que o poeta pretende levar a efeito.

MODERNISMO DE 45: Situado cronologicamente na geração de 45, ocupa posição isolada no panorama histórico da poesia brasileira, por sua personalidade ímpar, sua linguagem enxuta, as imagens predominantemente visuais, o desenho dos poemas, que parecem traçados a régua e compasso. A poesia de João Cabral, como sugere o próprio poeta, divide-se em duas águas. Na primeira linha predomina a pesquisa da criação poética, o rigor formal, o repúdio a qualquer nota sentimental ou interferência do irracional, que se desenvolve a partir de O Engenheiro (1945), até A Escola das Facas (1980), incluindo Uma Faca só Lâmina (1955) e Museu de Tudo (1975). A outra grande vertente é a crítica social, ácida, mas sem qualquer nota panfletária ou demagógica, na qual persistem todas as constantes da primeira linha, mas com uma contundência de faca, uma faca só lâmina. O processo, iniciado com O Cão Sem Plumas (1950), se acentua em O Rio (1954) e Morte e Vida Severina (1955), reaparece em Dois Parlamentos (1960) e Agrestes (1984), e como que se depura no Auto do Frade (1984). Convém ainda salientar a presença obsessiva da Espanha, ao longo de toda a sua obra, desde Paisagens com Figuras (1955), Quaderna (1959), Serial, (1961) até Crime na Calle Relator (1987) e Sevilha Andando (1990).

A OBRA: Não devemos, entretanto, supor que essa relação do poeta com o mundo concreto, objetivo, produza apenas textos descritivos. Na verdade, suas descrições ora acabam adquirindo valor simbólico, ora acabam denunciando a crítica social que o poeta pretende levar a efeito.

Pedra do Sono, seu primeiro livro, apresenta elementos do surrealismo, a começar pelo título (sono). Segundo o próprio poeta, o que se pretendeu nesse livro foi "compor um buquê de imagens em cada poema,- as imagens revelam matéria surrealista no sentido de oníricas, subconscientes... " . O sono e o sonho são temas freqüentes e importantes nessa obra. O próprio autor considera sua primeira obra como "um livro falso", cujo rendimento artístico não o satisfez. Reúne poemas curtos, a maioria compostos em versos irregulares e brancos. No símbolo “pedra” temos a obsessão de ordem e clareza que motivará toda a sua produção literária; e em “sono” a poesia ainda  vaga, latente, que o poeta luta para transformar em palavras concretas. Há possíveis ressonâncias da poética de 1922, identificáveis na captação do cotidiano, na linguagem aparentemente despretensiosa, no estilo coloquial-irônico.

A ANDRÉ MASSON
Com peixes e cavalos sonâmbulos
pintas a obscura metafísica
do limbo.
Cavalos e peixes guerreiros
fauna dentro da terra a nossos pés
crianças mortas que nos
seguem
dos sonhos.

O Engenheiro, embora inclua ainda poemas de caráter surrealista, traz já as bases de sua nova concepção de poesia, segundo a qual o poema deve resultar de uma atitude racionalista, objetiva, diante da realidade concreta. Uma atitude de quem controla racionalmente as emoções, mas o dado novo é a definição de uma perspectiva  racional, do ideal de um projeto geométrico de construção de seus poemas.
Formas primitivas fecham os olhos
escafandros ocultam luzes frias;
invisíveis na superfície pálpebras
não batem.
Friorentos corremos ao sol gelado
de teu país de mina onde guardas
o alimento a química o enxofre
da noite.
Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
Diante da folha em branco:
Princípio do mundo lua nova.
Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:
Nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.
A lição de poesia
Psicologia da composição mostra o amadurecimento daquele conceito de poesia rascunhado no livro anterior. O poeta rejeita - em poemas de caráter metalingüístico - a inspiração e assume, não sem hesitar, a objetividade diante do ato de escrever. Por isso, o livro apresenta poemas com uma linguagem racional, lógica, marcados pelo extremo cuidado formal.
Saio de meu poema
como quem lava as mãos.

Algumas conchas tornaram-se,
que o sol da atenção
cristalizou; alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.

Talvez alguma concha
dessas (ou pássaro) lembre,
côncava, o corpo do gesto
extinto que o ar já preencheu;

talvez, como a camisa
vazia, que despi.

Os livros seguintes - O cão sem plumas, escrito em Barcelona, denuncia a realidade nordestina, também no poema  O rio (em 1ª pessoa) onde o eu-lírico  é o próprio rio. Engenhos, usinas, trem, afluentes, misturam-se na viagem do sertão ao mar. Ressalta-se na redundância , na duplicação de palavras e ritmos, o poema sugere a cadência da prosa e a monotonia das águas barrentas do Capibaribe, cão sem pêlo ou pluma, reduzido só a detritos e lama.

Paisagem do Capibaribe

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada
O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul.
da fonte cor-de-rosa
 da água  do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Em Paisagem com Figuras, compara o norte da Espanha  com a paisagem nordestina. João Cabral encontra, nos seus primeiros contatos com a geografia espanhola, o espaço árido do sertão nordestino. Por isso, em “Imagens em Castela”, do livro Paisagens com figuras (1954-1955), percebemos o retorno a Pernambuco através da recuperação da aridez da terra e dos elementos que a compõem:

(...)
No mais, não é Castela
mesa nem palco, é o pão:
a mesma crosta queimada,
o mesmo pardo no chão;

aquele mesmo equilíbrio
de seco e úmido, do pão,
terra de águas contadas
onde é mais contado o grão;

aquela maciez sofrida
que se pode ver no pão
e em tudo o que o homem faz
diretamente com a mão.

E mais: por dentro, Castela
tem aquela dimensão
dos homens de pão escasso,
sua calada condição

 Quaderna  é antilírico e composto por quartetos rimados. Publicado em Lisboa, a obra é uma espécie de divisor de águas. Ali já se encontra traçada, de modo geral, a linha poética que culminará em Educação pela Pedra e nas obras posteriores. Apresenta-se de forma matemática, ou mais precisamente, geometricamente estruturado. Quase a totalidade dos poemas que compõem o livro é formada por quartetos, forma que remete, obviamente, ao número quatro, a um quadrado, ou seja, ao que possui equilíbrio perfeito, onde nada sobra nem falta, cada parte possui seu correspondente.

 
Se diz a palo seco                                    A palo seco existem
o cante sem guitarra;                                 situações e objetos:
o cante sem; o cante;                                Graciliano Ramos
o cante sem mais nada;                             desenho de arquiteto
se diz a palo seco                                      as paredes caiadas             
a esse cante despido:                                a elegância dos pregos,
ao cante que se canta                                a cidade de Córdoba,
sob o silêncio a pino.                                  O arame dos insetos.

O cante a palo seco                                   Eis uns poucos exemplos
é o cante mais só:                                      de ser a palo seco
é cantar num deserto                                 dos quais se retirar
devassado de sol;                                      higiene ou conselho:

é o mesmo que cantar                                não de aceitar o seco
num deserto sem sombra                           por resignadamente,
em que a voz só dispõe                             mas de empregar o seco
do que ela mesma ponha.                          Porque é mais contundente


A palo seco significa literalmente, a "pau seco". É uma expressão idiomática castelhana que significa "sem rodeios", "objetivamente" e também faz referência a um cante sem acompanhamento da guitarra, a capella. Neste poema, João Cabral volta a abordar o sentido de objetividade e concisão de sua poética. Segundo Antonio Carlos Secchin, o texto se divide em quatro segmentos: 1) definição do cante; 2) relação entre o cante e o silêncio; 3) redefinição do cante; 4) exemplificação de situações e de objetos a palo seco. Inspira-se na aridez geográfica e humana do sertão para se tornar, também ela, uma poesia seca e exterior. É clara a idéia de concisão, da palavra justa, exata, racionalista, retirando os excessos ou derramamentos. Trata-se de uma poesia essencialmente racionalista.

Dois Parlamentos: parodia a gratuidade e a recorrência da fala  dos políticos institucionais, distanciados da realidade (“Congresso no Polígono das Secas” e "Festa na Casa Grande”). é dividido em duas partes. A primeira é Congresso no Polígono das Secas, onde o autor compara permanentemente o sertão com um cemitério auto-suficiente, onde nasce e morre o sertanejo e nem mesmo os vermes proliferam. A segunda é Festa na Casa-grande. Nesta parte fala-se dos habitantes do engenho (os engenhos na época já eram poucos, definhando com a competição das usinas), sempre referidos pelo autor como cassacos (um pequeno mamífero), sempre pobres, sujos e famintos, com pouca instrução, chance de desenvolvimento e uma única certeza na vida: a morte na miséria. Todas as duas partes de Dois Parlamentos tem seus fragmentos precedidos por números aleatórios.

Em Serial, de 1961, encontramos poemas compostos em  série, ultrapassando o lirismo e a musicalidade. Como característica: busca da forma, e lucidez severa da composição.

Educação pela Pedra é  coletânea  que expõe a “depuração”  atingida pelo poeta num processo rigoroso e sistemático, comparável à resistência/ consistência da pedra.
 
A Educação pela Pedra
Uma educação pela pedra: por lições;
Para aprender da pedra, freqüentá-la;
Captar sua voz inenfática, impessoal
[pela de dicção ela começa as aulas].
A lição de moral, sua resistência fria
Ao que flui e a fluir, a ser maleada;
A de poética, sua carnadura concreta;
A de economia, seu adensar-se compacta:
Lições da pedra [de fora para dentro,
Cartilha muda], para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão
[de dentro para fora, e pré-didática].
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma.

Linguagem seca, precisa, concisa, desprezo pelo sentimentalismo. A arte não é intuitiva - é calculada, nua e crua.

Museu de Tudo  é composto por poemas que diferem da simetria habitual do autor (por isso seu rigor eliminou tais poemas dos livros anteriores). A temática de João Cabral é recursiva, volta sempre aos seus recursos de estilo, aos seus temas obsessivos – o canavial, o cemitério... Um desses temas, sem dúvida, dentre os mais freqüentes, é a poesia.
DÍPTICO

A verdade é que na poesia
de seu depois dos cinqüenta,
nessa meditação areal
em que ele se desfez, quem tenta
encontrará ainda cristais,
formas vivas, na fala frouxa,
que devolvem seu tom antigo
de fazer poesias com coisas:

O poeta, depois dos cinqüenta anos, meditando na forma areal em que se desfez buscando seus poemas... Cristais aparece em muitas poesias dele no sentido de poemas, diamantes, algo mineral, de cata e alquimia, de lapidação. Poesia com o tom antigo de fazer poesias...

Escola das Facas  “poemas pernambucanos”, Cabral retoma a  preferência pela simetria. Há notas memorialistas e a 1ª pessoa (sem despersonalização, eis a diferença). Mantém a poética da objetividade e do rigor, depurando-se em variações infinitas sobre as mesmas bases temáticas.  No poema "Descoberta da Literatura", integrante da obra, João Cabral retoma o ambiente da sua infância:

No dia-a-dia do engenho,                  
toda a semana, durante,     
cochichavam-me em segredo:  
saiu um novo romance.
E da feira do domingo
me traziam conspirantes
para que os lesse e explicasse
um romance de barbante.
Sentados na roda morta
de um carro de boi, sem jante,
ouviam o folheto guenzo ,
a seu leitor semelhante,
com as peripécias de espanto
preditas pelos feirantes. (...)

Em 84 surge O Auto do Frade, um poema para vozes. Como Morte e Vida Severina, este também é para ser lido em voz alta. O tema é Frei Caneca, mentor da Confederação do Equador (movimento republicano em Pernambuco), executado em 1825, por ordem de Pedro I. O poema retoma o último dia do líder carmelita. O povo o vê caminhando para a morte:

“-Ei-lo que vem descendo a escada, degrau a
degrau.Como vem calmo.
 -Crê no mundo,e quis conserta-lo.
 -E ainda crê, já condenado?
 -Sabe que não o consertará.
 -Mas que virão para imita-lo.”

Em Morte e vida severina - mostram um poeta mais diretamente voltado para a temática social, analisando a realidade geográfica, humana e social do Nordeste.
Morte e vida severina, sua obra mais conhecida, é um poema narrativo que tem como sub-título auto de Natal pernambucano, trata da caminhada de um retirante - Severino - do sertão até a zona litorânea, em busca de condições para sobreviver à seca. A semelhança com um auto natalino ocorre no final, quando, ao presenciar o nascimento de uma criança, o retirante renuncia à intenção de matar-se. Paisagem com figuras traça paralelos entre duas terras que o poeta conhece bem: a Espanha e Pernambuco.

 

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